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Wednesday, August 11, 2010

Aiiii. Que raiva!




(postão-desabafo gigantesco. Para quem tem cachorro :-P)

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh. 

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh. 

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh. 

Bom, agora que já gritei, vou escrever. hahahah

Como é difícil reagir à situações inesperadas, desconfortáveis e inconvenientes (principalmente) em uma língua que não é a sua, não? Passei por isso ontem e fiquei pensando nisso no meio da raiva interna por não ter conseguido mandar a pessoa ir à merda (Simone, agora vc vai entender meu comentário no FB)

Eu já fiz meu "inburgering" (curso de integração, etapa obrigatória na vida de um imigrante comum na Holanda), passei no "staatsexamen" (um TOEFL holandês), consigo me comunicar em holandês (com erros, tenho um longo caminho pela frente, mas me faço entender), acompanhar conversas e dar pitaco, ver TV, mas percebi que no calor da emoção - seja boa ou ruim - nada como a nossa língua. Ok, inglês também porque é uma língua da minha "zona de conforto", mas mesmo o inglês não substitui o holandês.

Aqui no parque há 2 áreas cercadas enormes para cachorro correr solto sem incomodar ninguém e atualmente o bosque do bairro também teve uma parte, bem no miolo, reservada para as pessoas passearem com seus cachorros soltos. São as "Losloop zone" (áreas para andar solto), com cercas e/ou plaquinhas delimitando-as. No bosque só há plaquinhas e eu as respeito e muito! Aliás, sou toda certinha com isso porque respeito os que não gostam de cachorro, respeito o espaço do outro, ou faço o meu melhor. Pois bem, toda tarde eu levo a filhota para o bosque, porque o meu parque, como eu comentei no Post sobre o silêncio, só é o "meu parque" de manhã. E deixo ela correr solta na "meiuca" da área para os cachorros. Assim, que vejo a plaquinha de fim de "zona", coloco a Kira de volta na coleira. Sem problemas. 

Além de achar que meu direito termina onde começa o do outro, a Kira tem ainda alguns traumas do passado (acho que comentei que a adotamos com pouco mais de 1 ano e ela já havia sido adotada filhote e devolvida e que isso gerou uns traumas nela. Ela tem pavor de ficar sozinha por medo de ser abandonada, ela tem horror a um certo tipo de homem (provavelmente por causa do "dono" antigo), tem uma boca enorme e se acha o pitbull quando está na coleira. E por isso eu tomo cuidados extras com ela quando saímos. 

Bom, mas voltando, ontem fui passear no bosque com a Kira, a menininha que vem brincar com a Kira e a sogra com o cachorrão dela. Só que dessa vez o "Seu Lobo" veio e foi um saco. Assim que saímos do miolo do bosque para o anel de terra batida que o circunda e que ainda é área livre para cachorros, ouvimos um barulho estranho e veio um senhor de bicicleta seguido por um menininho de uns 5 anos em um bicicletinha fazendo um barulho infernal (sabe quando o povo colocava copo plastico no aro da bicicleta para ficar barulhenta? por aí). Resultado: a Kira se assustou e foi correndo, como ela sempre faz ao se sentir acuada, para a bicicleta do menino. Só que ele parou e ela parou imediatamente também. Eu falei para ele não se assustar, que ela estava com medo do barulho e que não faria nada. A chamei de volta e ela veio, sem problemas. Pedi desculpas ao menino e ao senhor e seguimos em paz. Eles "entraram" no bosque e nós seguimos pela "rua".

A m. foi que o tal senhor resolveu sair de repente de uma trilha bem em cima da gente. E seguido pelo filho/neto. Bom, se nós nos assustamos, vocês imaginam os 4 patas, né?! Resultado, a Kira foi atrás. E mesmo que eu fosse um Robson Caetano da vida, não conseguiria alcançar uma bicicleta e muito menos um cachorro de caça correndo. O Senhor parou 30 metros a frente puto da vida (ok, não é agradável. eu entendo) e tentou chutar a Kira com o pé. Aí o circo se formou. Eu chamando a Kira, ela latindo e brava porque foi "atacada" (uma dica para quem estiver de bicicleta e um cachorro vier para o aro: não chute o cachorro! Pare, veja se tem alguem, mantenha-se calmo. Cachorro reage ao medo) e ele continuou a pedalar a m. da bicicleta e ela o acompanhou e ele parou meio metro depois, e...

Eu desde o início pedia que ele esperasse um minuto para que eu pudesse me aproximar e colocá-la na coleira para que eles pudessem se afastar e ele me ignorou. E várias vezes! Bom, entrou para o bosque de novo e a Kira foi atrás e eu junto. Aí o homem me para a bicicleta e quase partindo para cima de mim fala "Nou ("Agora", mas que pode em alguns momentos ser um "Porra!")Vai demorar muito para você acordar e colocar essa besta na coleira?!" e eu respondi que estava tentando, mas que se ele esperasse um minuto sem pedalar seria mais fácil e ele reagiu ainda mais forte e disse "Que absurdo! Ridículo! Idiota! Então eu é que tenho que parar para você colocar a sua besta na coleira? Idiota". Eu disse que ele não TINHA que parar, mas que seria muito mais prático para nós dois se ele o fizesse. E disse que eles estavam fazendo "mountain bike" justamente na área que é para os cachorros correrem livres e que provavelmente ele teria o mesmo problema mais vezes. A Kira já tinha há muito parado de perseguir porque, em meio aos berros dele, eu a estava chamando e ela estava correndo com o cachorro da sogra. Detalhe: o menininho já estava lá na frente e sem problema com os cachorros. 

Eu não sei como mantive a calma e não reagi aos insultos e à raiva no mesmo tom e nível. Ainda mais quando ele por algumas vezes tentou chutar a Kira e me chamou de idiota.  Naquelas circunstâncias, infelizmente, o idiota (por ignorância do lugar e das regras) era ele. Explico: O bosque é uma área enorme e talvez 1/5, 1/10 seja destinado aos cachorros, ou melhor, seja uma zona livre para cachorros soltos. Fora daquele circulo, cachorro só na coleira. E há uma quantidade enorme de pessoas com cachorros ali desde que isso foi criado.  Ele decidiu ir justamente com o moleque para aquele pedaço. E sinalização demarcando a área é o que não falta, tanto no entorno quanto no miolo do bosque, nas trilhas... Passou da placa, se alguém pegar: 90 euros.  O resto do bosque têm trilhas ótimas, também muita parte selvagem e vão até construir um parquinho (proibido para cachorro, mesmo na coleira, como já é no parquinho do parque). Tudo para que haja uma convivência harmoniosa e todos os interesses sejam atendidos. Cocô de cachorro? Milhões de latas pelas trilhas (e eu sempre recolho). 

No mais, as zonas livres para cachorro são também, claro, livres para pessoas, crianças e bicicletas, mas todos sabem que, por orientação oficial, uma atenção extra é necessária. Que se você decide "entrar" numa los loop zone com sua bicicleta ou fazendo cooper e um cachorro estiver próximo você precisa diminuir o passo, ir com calma,..., para a sua segurança/comodidade e também dos outros. 

Eu o tempo todo reagi em holandês e eu não consigo entender o porquê de não ter ido para o inglês, que a pessoa provavelmente fala ou arranha. Estava fora da minha "zona de conforto idiomática" :-P (Depois de ler o post da Dani, acho que quando evitamos tentar nos comunicar em holandês, sabendo já o básico, e partimos de cara para o inglês, sabendo q a pessoa vai compreender de cara, é de certa forma uma "síndrome de Gabriela" verbal :-P ). Com certeza em inglês eu teria me colocado mais firmemente e claramente. Eu acabei reagindo como culpada na zona, enquanto, desde o início estava tentando era resolver calmamente e sem irritação para os dois lados. 

Eu estava tão nervosa, tão cheia de raiva por dentro, daquela raiva que você sente queimar, sabe?! Por ter sido xingada, por ter passado por uma situação dessas quando eu sempre tento seguir as regras e por sempre respeitar os limites para uma boa convivência... e acima de tudo por ser "mãe" da minha filhota 4 patas e ver o idiota tentando agredi-la fisicamente. Fiquei com raiva por minha sogra ter ficado de fora na hora do vamos ver e não ter se mexido para me ajudar a pelo menos pegar a Kira. Fiquei com raiva por não ter conseguido reagir da forma como eu deveria. Não, não com agressão, mas de forma firme.

Ao sair da situação, encontrei com algumas pessoas pelo caminho (que também passeiam na mesma hora) e hoje no parque. Comentando a situação, recebi apoio deles (holandeses). Uma disse: "Ele é uma exceção e não regra. É uma pessoa associal (asociaal, em holandês)". E é isso! Não é nem que o cara seja anti-social, ele é associal. Que ele estivesse com medo, assustado, ou preocupado com o menino (que estava feliz da vida e nem ligando pra nada, que soube agir melhor que ele) é compreensível. Mas, a reação não, ainda mais a partir do momento que eu reagi calma, o pedi que esperasse e que se ele parasse ela não continuaria e não faria nada, nada justifica ele agredir fisica e verbalmente (o que só piorou as coisas e muito!).

Resumindo: Não há nada como um "vá à merda" terapêutico (ou qq outro palavrão bem dito). Acho que nenhum "f.you", ou "krijg de kanker" ("pegue câncer", em holandês) substitui a força de um "ir à merda". 

Ahhhh, agora um ahhhhh de alívio! Desabafei! ;-) 

Beijocas!