Wednesday, August 25, 2010

Gente meio assim... Por quê?

Ego, Ratatouille. Quem viu o filme concordará que é a figura perfeita para ilustrar o post.


Bom dia!!!

Hoje estava pensando no que escrever mesmo com tantos posts no rascunho por terminar, mas sem a menor vontade de escrever sobre nenhum dos temas. Aí, lendo os fóruns da vida, me lembrei de uma situação que vivi em Amsterdã que acho que dá um início de discussão interessante ("início" porque o tema, ou temas, dá muito pano pra manga).

A minha "família limpa" (1*) vem toda do extremo sul da Holanda. Os sogros vieram para Brabant já casados e todo o resto, ou quase, ainda mora por Limburg. Dos dois lados. Bom, para evitar que os primos percam o contato, agora que são todos adultos, uma prima decidiu criar o "dia dos primos". De vez em quando nos reunimos para conversar, ir para a noitada, fazer alguma coisa juntos. Cada vez é em uma das cidades onde os primos moram. Já foi no sul, já foi aqui e... já foi em Amsterdã. Um dos primos foi morar em Amsterdã. E é justamente esse encontro que acabou na cena que vai abrir a discussão.

Já tinha encontrado o primo outras vezes, sempre em reunião de família (natal, aniversário...) e ele sempre foi na dele. Nem simpático demais, nem arredio demais. "Cool". Mas, quando chegamos aos seus domínios... Ui! Que cara chato, estranho, mandão! Primeiro não quis nos encontrar no centro, na lojinha brasileira, onde iríamos entrar num PF de picanha (só quem mora fora sabe o valor que um PF de picanha tem! ). Até aí nada demais. Depois, ele decidiu que comeríamos Pizza. Ok, também nada demais. O tempo todo no apartamento dele ele se comportou como um verdadeiro babaca (desculpem o termo, mas não tem melhor). Cheio de indiretas para os primos e para mim, se sentindo "O cara". Eu já tinha visto esse filme: Era o primo que "foi para a capital", ou para a "capitaRRR". A diferença é que Maastricht está longe de ser uma roça e eu acho bem mais legal do que Amsterdã, cá entre nós. Se portando como o estereótipo (!) do "Amsterdense" (?) descolado, seboso e arrogante. Falando até com um sotaque meia bomba. Na época eu não arriscava o holandês, mas mesmo assim ele arranjou um jeito de tentar me "zoar" pela forma que eu falava o nome da prima, que termina em "Anne" (é entre ana e anê). Não se criou. Tentou sacanear o nome-apelido da minha irmã, por ser o mesmo de um Zoo no sul. Também sem sucesso. Ele não percebia que para mim ele não era o "ó do bobó", ele não era "cool" e morar em Amsterdã não me dizia nada (*2). Não me impressionava. Já conheci gente mais impressionante nessa vida hahahah

Por tradição, os "locais" montam a programação. Lá fomos nós para a Rembrandtplein. Ele me (nos) senta num italiano, como se fosse o local. Ah, gente... Com tanto barzinho bacana (eu adoro o 3 gezusters de qualquer lugar e lá tem um! ou melhor, 2! Um do lado do outro), o coiso me arranja um pé imundo, pior que a maioria dos pés imundos que eu já freqüentei no Brasil. Com péssimo atendimento, copo fedido... E um banheiro que eu não consegui ir e eu estou beeeeemmm longe de ser fresca. Sério. Tinha uma torre de papel higiênico usado, cagado e amassado em volta do vaso até a altura da descarga. Papel não tinha. O banheiro era ao lado da porta da cozinha, quando pedimos a um garçom mais papel e ele abriu a porta da cozinha e pegou o rolo, ao lado das panelas... Eu olhei o cozinheiro, eu olhei o lugar... Quis sair correndo. Tão sujo quanto o banheiro.

Fomos direto para a segunda parte da noitada: um café-pub-club na praça onde tínhamos que pagar 8 euros para entrar (eu nunca paguei para entrar num lugar desses aqui em Tilburg!). Lugarzinho Ok. Ele tentou achar um lugar que tinha a ver com o que íamos por aqui, tentou agradar no estilo dele. Isso realmente não me faria reclamar. O jeito dele sim. Mas, poderia ser só um caso de babaquice aguda, deslumbrado com a "cidade grande". Isso não me abalaria tanto. O problema maior foi o que estava por vir quando saímos do bar...
Depois da noitada, nós 5, fomos caminhando para pegar a balsa atrás da estação central. Logo na saída, tinha um grupo grande bem animado e no meio havia alguns gays. Eles sorriram, me deram boa noite, eu dei de volta e o coiso: "Fags (em inglês mesmo)! Essas merdas estão espalhadas por todo canto. Sai daqui! Deveria ser proibido". E continuou aos berros. Eu fiquei tão, mas tão p. Saí andando, com a pior cara do mundo, me afastando do resto e vi que não fui a única (que bom!). Como assim? Eu fiquei tão chocada... Como um cara que se acha o cool de Amsterdã, que se acha o moderno, o tal, é tão, tão... E, peraí, né?! Eu respeito quem tem uma opinião diferente da minha (apesar de ficar triste, desapontada, etc etc com algumas coisas), mas envolver o grupo todo no ódio dele? Chamando a atenção do mundo com palavras de ódio, como se todos nós estivéssemos no mesmo barco? Ah, não! Há maneiras mais civilizadas de se expôr uma opinião. E geralmente, quem grita não tem argumento, não é?!

Conversando com a sogra descobri a razão (ou uma delas): o pai é gay. Se assumiu quando o talzinho e o irmão (gente finíssima) eram crianças. A mãe (a tia mais querida) segurou a barra, o fim do casamento, mas não contou para os filhos a razão, sobre o pai ser gay e estar indo morar com um cara. Achou que era dever dele. Segurou a onda, foi culpada pelos moleques... Até que o pai abriu a boca. O resto é história. Justificar, não justifica, mas ajuda a formar o quadro. Claro que, depois disso, os encontros entre os primos ficaram mais raros e mais "restritos". Será que o pai do coiso teria feito melhor em não se assumir e viver o resto da vida numa mentira só porque tinha 2 meninos? Isso faria do coiso-diva uma pessoa melhor? Não sei. Acho que não. Com certeza a mãe não seria feliz. O pai também não. E duvido que os 2 filhos seriam.

Desde então, volta e meia me deparo com uma figurinha do tipo pela Tamancolândia (e também, claro, pelo mundo). Pessoas que não aceitam o diferente, pessoas que não suportam não estar no holofote, pessoas com necessidade de serem divas, sofrendo de divisse aguda. Pessoas que querem chocar os outros com opiniões fortes, para simplesmente estar no centro. Pessoas que precisam de um palco, que precisam falar um ai, mesmo que um ai não seja necessário. Pessoas que, mesmo sendo muito "machas", precisam de "um palco,um vestido de lamê e uma chuva de purpurina cercada de holofotes" e que, algumas vezes, se isolam num mundinho onde são Deus, tentam compensar alguma coisa . Pessoas que pelo o que eu vejo são extremamente inseguras e usam escudos para se protegerem. Pessoas com o ego inflamado que, para mim, também é fruto da insegurança, da baixa autoestima. Quem se compara, para mim, não está avaliando o comparado, está é se avaliando. Pessoas que odeiam (estou falando de ódio) para mim se reconhecem de alguma forma. Como é aquele ditado que diz que os defeitos que nos incomodam nos outros são os nossos refletidos? Esqueci. E o curioso sobre a "divisse" é que eu vejo mais em homens do que em mulheres. A divisse feminina é diferente, passa por outras coisas, apesar de incluir a divisse aguda também em alguns casos.
Ego vivendo seu "momento tchuns".

E também já encontrei muitos, mas muitos homofóbicos na Holanda. E não estou falando de pessoas que não achem o homossexualismo legal, que não curtam,..., ou que prefiram ficar de fora, que não se interessam,..., cada um tem seu direito de pensar o que quiser, viver como quiser. Estou falando de fobia mesmo. Pessoas que se arrepiam só de ouvir falar no assunto, que têm tremeliques, que deturpam tudo o que tenha alguma relação com algum homossexual. Que acham que tudo se resume a sacanagem e/ou é uma doença, um câncer social. "Esse cara não pode trabalhar como pediatra, esse cara não pode ser advogado, esse cara não pode assumir o cara dele, esse cara tem que viver sozinho, esse cara não pode adotar, esse cara não pode frequentar a minha casa, esse cara não pode jogar bola...Essa cara não pode viver porque é gay". "Eu? Ir tomar uma cerveja com ele? Ui! Vão achar que eu sou!" "O que? meu filho na casa daquele amigo que o pai/a mãe é? Não!!!" Já ouvi muita, mas muita gente falando que esse asco é coisa de gente mal resolvida, que deve ser gay e não tem coragem de se assumir. Acho que em alguns casos isso pode até acontecer e a fobia, o ódio são usados como escudo, mas não é a regra. Acredito que o buraco seja bem mais embaixo. Alguns, como o coiso, podem ter passado por algum trauma e outros simplesmente temem o desconhecido, repudiam de cara... É o maldito preconceito. Sei lá. Mas, definitivamente algumas pessoas precisam viver seu "momento tchuns", como o Ego de Ratatouille.

Estive pensando nisso nos últimos dias. Em como o primo coiso consegue reunir homofobia e "divisse aguda" no mesmo nível. Se há relação entre as duas. Em como há gente assim por aqui e pelo o mundo. Nos Porquês... Estive pensando nos egos, especialmente nos inflamados... No "se achar mais"... A razão de tudo isso... Cada um desses pontos/ temas dá metros e metros de pano para manga, não?! Discussões infinitas.

Beijooooooo

p.s: Esqueci de uma coisa: ainda dá para votar no blog da Tati!! do que eu estou falando? Deem uma lida no post anterior ;-)
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(1*) Família limpa = Schoonfamilie = Família do marido em tradução literal, "sogromilia". Em holandês sogra é "Mãe Limpa (ah se o Dicró ouvisse isso!!), Sogro é "pai limpo", ..., e por aí vai.
(2*) Nada contra Amsterdã, gente! Mas, gosto para exposições, eventos... Não sei se curtiria morar em Amsterdã e não tenho o deslumbre, não acho que as pessoas sejam "mais" por lá (ou em nenhum lugar)

6 comments:

Paula said...

Oi Fefa!
Tenho acompanhado seu blog e resolvi postar dessa vez... ;)

Não sou psicóloga, mas acho que pessoas como esse "coiso" sofrem basicamente de 3 problemas:

1) Baixa auto-estima, como vc já comentou;
2) Complexo de inferioridade, por isso morar em Amsterdam é tão importante;
3) São mal-amadas!

A última, talvez seja a que mais torne as pessoas amargas, irritadiças, intolerantes e até mesmo agressivas. Acho até que em mulheres a identificação desse mal é mais nítida.

Sou da opinião que os mal-amados reagem a situações cotidianas (como a que vc vivenciou no parque com a sua cachorrinha) de forma totalmente estúpida e exagerada.

Mas fazer o quê com essa gente? Apenas ter paciência, e se possível, evitá-las...

Bjs

Tati Pastorello said...

Oi Fefa, adorei seus questionamentos. Vejo isso por aqui também. E é mais comum em pessoas menos instruídas, em especial sobre homossexualismo. É triste de ver, né? Como pode uma pessoa achar que pode definir a felicidade da outra? Estranho demais... Te entendo e concordo. Tenho amigos gays ótimos. E acho discriminação, de qualquer espécie, o fim! Aqui ainda vemos muito também a racial, e o pior, muitas vezes de uma forma velada, mas incisiva. Sabe como?
Que o tema continue. E que o primo-coiso fique bem longe!! hehehe
Ah, adorei o termo "divisse aguda"! kkkkk
Beijos.

Simone said...

Ai fefa, esse post rende muitos comentários viu.

Primeiro, depois de um tempo morando na Holanda, você percebe que Amsterdam é legal pra turista, morar lá não tem nada de glamour (nada contra, a cidade é linda), mas eu sempre imaginei como o povo trabalha e tem que abrir caminho em meio a multidão de turistas, ter gente toda hora tirando foto e querendo ver dentro da sua casa (se você morar ali nos canais), tudo é muito cheio, muita informação pra mim. Então me diz porque morar lá, seria melhor do que morar em outras cidades holandesas? Até porque a Holanda tem essa coisa bem legal de ter tudo até nas cidades pequenas. Achei ele caipira sim, parece aquele povo aqui no Brasil que "foi pra cidade grande" e ficou bobo.

Quanto a homofobia dele, tai ai explicadinho como a sua sogra falou. tivemos um exemplo de homofobia explicita esses dias na BNH, é só procurar a fundo qual o trauma, o problema dessas pessoas.

Eu também acha que homofobia estava ligado a falta de informação, a baixa escolaridade, coisas assim, mas já vi que não, então só pode ser isso mesmo.

Sabe que eu não faço a minina pra agradar esse tipo de pessoa, familia é uma coisa complicada, tem coisas que temos que fazer por obrigação, mas eu tento escapar da maioria dos familiares que eu sei que vão me causar azia.

beijao

Fefa said...

Olá, Meninas!!!

Paula, bem vinda :-D Que legal ler gente nova! Concordo! E esses 3 problemas juntos são uma bomba ;)
Eu sempre achei que era mais frequente na mulherada, ou pelo menos, mais evidente. Mas, de uns tempos para cá, o que eu tenho visto de mocinhos sofrendo desse mal... Nossa. Sim, aquele senhor do parque é um ótimo exemplo. Eles realmente usam a agressão e o berro como um escudo. Sim, muita paciência, deixar passar pela sua vida se for inevitável... Esse "causo do coiso" já faz tempo. Foi em 2008, maaaasss, há umas semanas q eu tenho observado mais e mais coisos por aqui (e a maioria não é holandesa).

Beijos e obrigada pelo comentario :-D
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Tati, sabe que eu sempre percebi isso no Brasil? Com o pessoal menos instruído é, como vc disse, mais em relação ao preconceito. O q eu tenho visto é uma quantidade grande de "dotô", bem nascido, bem formado, juntando ego, divisse aguda e preconceito. TÃo "inteligentes", tão "cultos" e tão burraldos, estúpidos ao mesmo tempo. É impressionante a contradição. É muito triste. Sim, eu tb e são incríveis. A discriminação racial talvez seja um dos grandes problemas atuais na europa. O xenofobismo só faz crescer, como reflexo da crise. Sempre que a economia cai, isso se evidencia. É uma pena. Aqui é em relação aos antilhanos, indonesios, marroquinos, turcos, somalianos (islâmicos em geral) e agora está crescendo em relação aos Poloneses (mão de obra barata e migraçao em massa desde q entraram para a UE). Uma pena. Simmm, o coisildo está longe! Como eu comentei com a Paula aqui em cima, isso foi lááááá em 2008. :-P Eu tenho essa mania de inventar palavras qdo as que existem não significam exatamente o que eu quero dizer :-P Desde criança hahaha. Beijocas!!!!!

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Simone, eu concordo totalmente com vc sobre amsterdã. Sempre que eu vou à cidade fico pensando nisso. Fora a sujeira do centro (muito pelo turismo e pelo tipo de turismo) que me deixa doida. Adoro Brabant, Limburg... E pela Randstad, acho as cidades Satélites, vilarejos e cidades dormitórios seriam minha opção. Sim, capiauzão! No sentido ruim da palavra. Sobre a situação da BnH, nem comento ;-) É uma pena, mas não surpreende. E é um bom exemplo que não tem a ver com grau de escolaridade, instrução, ne?! Familia é mesmo uma coisa complicada, mas eu aprendi que nao vale a pena tentar contornar. O melhor, com esses tipos, é viver no que eles chamam de "obrigação social". Qdo não temos como evitar. E ai, sem descer do salto ;-) Família a gente não escolhe, mas pode selecionar os que valem a pena. Ou melhor, parente a gente não escolhe, família sim. Entendeu? hahaha ;-) Beijocas e aproveite muito amanhã!!!

Tatiana said...

Nossa Fefa....que primao você foi arrumar..rsrs...
Quanto ao restaurante pé de chinelo, quer saber se cozinha é limpinha é só ir no banheiro..rsrs...infelizmente você comprovou sofrendo...hahaha..."pilhas de papel ate o vaso!!!"
Caramba...deve ter sido uma noite dos infernos ter que aguentar uma pessoinha tao pequena a noite toda!!!
Nada como um blog pra desabafar,não é não Fefa??
Beijocas..

Fefa said...

Oi, Tati. Pois é, mas, faz parte. Esse causo faz tempo, foi em 2008, não tinha blog na época e não pude desabafar hahaha Mas, de umas semanas para cá andei esbarrando em tantos parecidos que o causo caiu bem e aí, através de um, desabafei sobre os "divos" e tb os "medrosos" :-P Tem razão. O banheiro diz muito sobre o lugar. Beijooo