Parece que foi ontem, mas foi há 3 anos atrás!
Dia 9 de junho fiz 3 anos de Holanda... 3 anos desde que cheguei aqui cheia de saudades (só fez aumentar), curiosidade (também), receio, medo... E feliz da vida. Em três anos me sinto adaptada e muito bem adaptada a esse país tão diferente do meu Brasil. Em três anos aprendi a ser mais tolerante, mais pé-no-chão, mais simples, ainda mais curiosa. Aprendi a relaxar (mas isso só agora! mês passado :-P), a lidar com emoções que nem eu sabia que seriam capazes de ser tão presentes e tão fortes, mesmo sendo eu pura emoção desde sempre (mas isso, na verdade estou aprendendo, e é um gerundio pro resto da vida :-P), a tentar "passar óleo nas costas", a ser ainda mais solidária, a valorizar ainda mais meus lugares, minhas histórias, minhas qualidades e meus defeitos... E valorizar acima de tudo e mais ainda meus amigos de hoje e de ontem, minha família, minhas conquistas, meus tropeços... Essa mudança foi bem mais do que uma mudança física, foi uma mudança interna, foi um mergulho em mim mesma, encarar de frente e dando a cara a tapa tudo aquilo para que eu fechava os olhos, crescer e virar gente grande... Parece exagero, mas não é. Pelo menos, não para mim, mas também exagero é meu sobrenome, ou melhor, intensidade hahahaha

Em 3 anos ganhei novos hábitos, novos amigos (amigos de infância, inclusive, desses que eu sei que posso contar e confiar e que eu abro meus braços e casa sem medo), ganhei novos causos pra contar, novos "passados" para lembrar,... até hobby's eu ganhei! Ganhei um marido, e ganhei um marido 2 vezes! Mas, um só, o mesmo. Ganhei uma filhota 4 patas. Ganhei "pais-limpos" (schoonouders, traduzindo literalmente :-P Sogros em holandês) maravilhosos, tios e primos para aumentar ainda mais minha família. Ganhei sonhos, anseios, saudades, "E SEs..." para pensar e esquecer...

Virei balzaca na Holanda. Virei mevrouw, "senhora", dona... Ganhei um sobrenome, mas só no social, um a mais para a minha coleção. Coleção porque já tinha três! Arranjei umas ruguinhas também, e banhinhas que aprendi a tolerar e a aceitar, já que aqui não rola a pressão que temos sobre o quanto pesar, o que vestir, como parecer e aparecer... Isso ainda é tão estranho para mim... Nesses três anos estou tendo que confrontar meus traumas. Mas, faz parte do mergulho em mim, da mudança...
Perdi contato com quem não deveria, mas também com quem eu deveria. Dos que valem a pena ficam a saudade, as histórias para lembrar e a vontade de reencontrar, falar, rever, curtir... Dos que não valem, ainda restam histórias que teimam em serem lembradas, mas que estão sendo aos poucos guardadas em baús bem fechados e pesados. Vi na prática o que eu só conhecia na teoria: que amor e ódio as vezes estão pertinho, de mãos dadas, mas também que amor não acaba, não dá e passa ele só se transforma, muda de jeito quando é de verdade. E isso não só pra amor "peixonado", mas amor de familia, amigo... Digo mais eu te amo. Digo mais o que eu sinto. Com os holandeses aprendi a ser mais direta, mais franca... Perdi medos, preconceitos, pré-conceitos, estereótipos, perdi muita da vergonha que eu já não tinha hahahaha Ganhei outras, verdade.
Perdi minha avó Amélia (a morena "cravo-e-canela"). Estava longe para dar tchau... Perdi junto um pouquinho de mim, da minha alegria, ganhei uma saudade que dói, mas aprendi a encarar o medo da dor da morte distante. Aprendi a enfrentar o luto com mais força, já que dessa vez é um luto quase irreal, pela falta de viver o momento lá. Mas, ganhei uma estrelinha, ou uma estrelona dessas que não tem para ninguém, para a turma de estrelonas que cuidam de mim. Fiquei com mais saudade ainda e mais vontade ainda de estar o tempo todo junto da outra super-vó, Silvita (a branquinha). Cresci. Amadureci. Fiquei mais sábia, modéstia a parte. Aí não só a mudança toda, mas também os anos contribuíram hahahaha

Na parte prática, aprendi que roupa não é auto-passante e dobrante hahaha Que bagunça não desaparece, que a dispensa não enche sozinha... Nah, exagero! Mas, aprendi a cuidar da minha casa, de mim... Cuidar da minha filhota, do marido... Aprendi a me virar. E temos, né?! Chegar numa país estranho, com cultura estranha, hábitos diferentes, um idioma que é um código secreto (e isso só o torna mais interessante, cá entre nós) e ter que dar a cara a tapa... Nossa! Cheguei aqui fluente em inglês, falando um pouco de espanhol, arranhando o francês... Mas, e o holandês?! Ui!! Lembro que me arrepiava ao perguntar numa loja ou no ônibus "Do you speak English?" e ouvir "A Litôu bite"... Mas também, relaxar quando via que falavam mais do que eu precisava. Acabei aprendendo o holandês, pelo menos o suficiente para me comunicar, ler jornal, livro e revista, ver TV, não boiar no bate papo, ir resolver minha vida sem ter que ouvir "A litou bite" de resposta... Descobri que o cérebro é teimoso e às vezes teima em não trocar com algumas pessoas para o holandês, porque conheceu a pessoa em inglês... Tá, "pobreminha di cabeça dinheu". Mas já desaprendi um bocado. Entrei na fase de só lembrar da palavra em holandês quando falo inglês, em inglês quando falo português e português quando falo holandês.
Virei "chefa" pela primeira vez e chefe em holandês. O que me deu um orgulho enorme, mas também nunca tive um nível tão alto de estresse! Aprendi que gerenciar não é mole, ainda mais 17 e 8 pessoas (o quanto variou o meu grupo) e em holandês, tendo acabado de fazer o curso, de chegar no país! Aconteceu depois de 1 ano e meio aqui e 1 semana e meia no trabalho. Foi um desafio daqueles, mas ao mesmo tempo que estresseante, foi gratificante também. Aumentou o meu know-how, meu know-how sobre holandeses e em holandês hahahahahah. Aprendi que o estereótipo de funcionário público rola na prática não somente no Brasil como por aqui também, mas que tem suas vantagens. A ter dois pés atrás com colegas, no ambiente de trabalho, mas também que dá pra confiar em alguns. Ganhei centenas de colegas e uns colegas que viraram amigos...

Não sei andar de klompen (os tamancos daqui), mas também vivo numa provincia que não tem essa tradição. Não gosto de drop, nem de arenque cru (o haring), batata na agua e sal com uns vegetais e carne sem tempero ainda não é minha comida favorita hahaha Ainda não jogo tênis e não me dou bem em esportes coletivos com bola. Ainda não penduro a bandeira em dias especiais na janela, não amo levensliedjes (as musiquinhas bem bregas daqui), mas já levanto o copo e sacudo as maozinhas pro alto com eles quando tocam em final de festa nos pubs, rindo do povo bêbado. Já gosto de umas cervejas encorpadas, mas não da normal, da pielsen, especialmente na temperatura de garagem deles. Festa aqui em casa ainda rola comilança e não só chips com amendoim e um ou outro queijinho. Torta/bolo ainda é no final de festa e tem café e chá para quem quiser, apesar de não ser diretamente oferecido ahahahaha Eu amo minha bicicleta, mas ainda a tenho como lazer e não como primeira opção de meio de transporte, muito menos no inverno, com chuva ou vento e neve... Já sei diferenciar sotaques de algumas províncias e também do flamengo belga. pra mim vla não é sobremesa, mas mingau gelado. Ah, e eu ainda não uso calças curtas (capri largas ou um cadinho mais longas) com bota longa!
Fiz amigos que fizeram de mim uma ONU! Tive o prazer de conviver no mesmo espaço com gente do mundo todo, de aprender um pouco das culturas, de me enriquecer com isso. De trocar! Aprendi que trocar é uma das palavras mais legais do mundo na prática! Experiência, idéia, cultura, conhecimento... Trocar é do cacete! Hoje tenho amigos do mundo. República Checa, África do Sul, Turquia, Marrocos, Indonésia, Tailândia, Romênia, Polônia, Rússia, Uzbequistão, França, Irã, Iraque, Afeganistão, EUA, Papua-Nova Guiné, Somália, Nigéria, Bélgica, Argentina, Honduras, Equador, Chile, México, Cuba, Espanha, Curaçao, Aruba, Suriname, etc etc... Olha que delícia?! E isso porque eu nem mesmo coloquei os meus queridos brasileiros, perdidos por aqui como eu. Gente boa, mais que boa. Aprendi a me abrir menos, mas ainda me abro e quebro a cara, mas menos que antes! Aprendi a ser seletiva (infelizmente) e diferenciar amigos de colegas, de conhecidos, de gente que nem passo perto, de gente que é pra abrir a casa, gente pra encontrar em bar, em evento, só em fórum...

Aprendi um "tantão de coisa" sobre a Europa que eu só via em teoria de livro de história. Vi, vivi, senti... E isso é só o começo. Ver de perto, sentir na pele, passar pelos lugares, conversar com gente do lugar, tatear... Isso nenhum livro te ensina. Ver através de outros pontos de vista, observar, tentar entender, compreender, aceitar... Tudo isso é do cacete e faz parte do nosso crescimento, acho eu.
Claaaaarrroooo que nem tudo são flores e vida de imigrante não é mole, não é melzinho na chupeta, que vir para cá não é moleza, esse mergulho, essa mudança é diferente para cada um e enfrentar isso nunca é fácil. Dar de cara com você como você é, é mais assustador e difícil do que pensamos. Aliás, nesses três anos fiz terapia em holandês hahahahah E foi/é ótimo. chegar até aqui e o início é um calvário, é uma série de obstáculos que parecem intransponíveis, mas que depois vão diminuindo, mesmo que nem todos sumam. A burocracia é enorme, a distância é incrível, o frio gela os ossos (mas vivenciar 4 estações é o que há!), seguir as normas, leis, passar pelas etapas todas, voltar para a sala de aula, voltar a ser criança tendo que aprender o be-a-bá (e não só da língua), assistir vila sésamo e teletubbies (ok, isso é engraçado), correr muito atrás, meter a cara em livros para ficar tenso e passar (talvez nao de primeira) em testes que você nunca imaginou fazer e que valem "a vida" por aqui hahaha Mas a cada etapa vencida, cada obstáculo derrubado vem uma sensação de vitória, vem um alívio tão gostoso, tão bom...
Essa semana, gente, já posso dar entrada na minha cidadania que, no meu caso, pode ser dupla e só por isso estou animada! E como estou! A vantagem não é ter um passaportezinho vermelho do lado do verdinho (o meu ainda é verde!), para ir para filas mais curtas em aeroporto... A vantagem é ser de fato cidadã completa de onde eu vivo, de poder votar, de me meter em confusões do bem com mais vontade ainda! E de saber que eu passei por tudo isso, nesses três anos e que é o "último obstáculo burocrático" da vida de um gringo na "gringolândia dos outros", de saber que eu consegui vencer o idioma, conseguir vencer as etapas de um imigrante calouro por aqui... E aí, daí pra frente, os desafios aumentam, são outros, são mais nebulosos e instigantes porque não se sabe o que vem ;-)
Acho que poderia escrever mais uns milhões de parágrafos sobre tudo o que acho que ganhei e perdi, aprendi por aqui, mas acho que vou parando. O legal desse post foi, ainda mais que os outros, escrever deixando fluir, sem pensar demais, sem reler... Meio que um desabafo desses 3 anos. E sabem o que é o mais legal? O mais bacana nisso tudo?! É saber que estou só começando! Que isso tudo é só uma gotinha inicial! Que ainda tem muito mais por vir!!! É só 1 degrauzinho...
Beijooooooo
p.s: ainda tem um detalhe: O mais fantástico de tudo isso, dessa mudança toda, de ter achado que mudei tanto, aprendi tanto, perdi e ganhei tanto foi ouvir do meu pai que ele finalmente estava vendo e tinha a "Fefa de antigamente" de volta depois de anos! É mole?! hehehehehe